A evolução das próteses valvares cardíacas: da cirurgia aberta às terapias transcateter

A evolução das próteses valvares cardíacas: da cirurgia aberta às terapias transcateter

Como a tecnologia transformou o tratamento das valvopatias e abriu caminho para opções cada vez mais seguras, duráveis e menos invasivas.


Introdução

As válvulas cardíacas garantem o fluxo adequado do sangue dentro do coração. Quando uma válvula não abre ou não fecha corretamente, pode ser necessário substituí-la. Ao longo das últimas décadas, a medicina avançou de forma impressionante — e as próteses valvares acompanharam essa transformação. Hoje, personalizamos a escolha de acordo com cada paciente.

1. O início: as primeiras próteses mecânicas

Na década de 1960, modelos como a Starr-Edwards — uma bola que se movia dentro de uma gaiola metálica — mudaram o destino de pacientes com valvopatias. Apesar do marco histórico, havia desvantagens importantes: maior risco de trombose, ruído audível e anticoagulação permanente. Em seguida, surgiram as válvulas de duplo disco, mais silenciosas e com fluxo mais fisiológico.

Prótese mecânica histórica do tipo bola e gaiola
Prótese mecânica do tipo bola e gaiola Starr-Edwards® (modelo histórico).

2. A chegada das biopróteses

Para eliminar a anticoagulação crônica, foram desenvolvidas as biopróteses, feitas com tecido bovino ou suíno tratado. Elas se comportam de maneira mais natural e são opção preferencial em diversos perfis — especialmente em pacientes idosos ou com contraindicação à anticoagulação.

Bioprótese cardíaca em detalhe
Bioprótese cardíaca: opção sem necessidade de anticoagulação contínua.

3. Biológica ou mecânica: qual é a melhor escolha?

Prótese mecânica

  • Durabilidade muito longa (décadas).
  • Requer anticoagulação contínua (↑ risco de sangramento).
  • Pode impor restrições a estilo de vida e procedimentos.

Bioprótese

  • Não exige anticoagulação crônica.
  • Degeneração ao longo de 10–15 anos (varia por idade/metabolismo).
  • Maior conforto no dia a dia.

Decisão individualizada: considerar idade, comorbidades, preferências, expectativa de vida e possibilidade de reintervenções.

4. A nova geração de biopróteses

Tecnologias recentes tratam o tecido para resistir à calcificação, aumentando a durabilidade. Muitos modelos já são desenhados para o futuro, permitindo Valve-in-Valve (implante de nova válvula dentro da antiga quando necessário). Esses avanços fizeram as biopróteses ultrapassarem as mecânicas em número de implantes, inclusive em pacientes mais jovens.

Detalhe de bioprótese de nova geração com stent metálico
Nova geração: Proótese Inspiris Resilia ® tecido tratado contra calcificação e estrutura ja preparada para possivel Valve-in-Valve no futuro.

5. As terapias transcateter

As terapias transcateter possibilitam implantar ou reparar válvulas sem cirurgia aberta, por meio de cateteres guiados por imagem. Inicialmente destinadas a pacientes de alto risco, hoje têm indicação ampliada graças a resultados consistentes e recuperação mais rápida.

Sistema de delivery para implante transcateter de válvula cardíaca
Sistema de entrega (delivery) utilizado nos procedimentos transcateter - reparo borda a borda mitral Pascal®.

Benefícios: menor invasividade, alta precisão, downtime reduzido e retorno mais rápido às atividades.

6. Lifetime management: cuidado ao longo da vida

O lifetime management propõe uma visão global e personalizada, considerando toda a jornada do paciente — da primeira intervenção a possíveis reoperações ou terapias transcateter futuras. A decisão entre cirurgia ou transcateter, plástica (reparo) ou troca valvar e entre prótese mecânica ou biológica deve ser sempre individualizada e tomada com um Heart Team.

Objetivo: o melhor resultado em cada fase da vida — com segurança, durabilidade e qualidade.

Conclusão

A história das próteses valvares é um retrato do avanço da cardiologia moderna. O que antes demandava cirurgias complexas hoje pode ser realizado de forma minimamente invasiva, com resultados duradouros. Mais do que tecnologia, isso representa um compromisso contínuo com a vida e com o futuro dos nossos pacientes.

Picture of Dr. Marcelo Kirschbaum
Dr. Marcelo Kirschbaum
Cardiologista com formação pelo InCor-FMUSP, UNIFESP, Dante Pazzanese e UFBA. Atua com foco em doenças valvares, cardiologia geral e casos complexos no InCor e no Hospital Albert Einstein. Acredito em decisões médicas construídas com escuta, clareza e respeito — para que o paciente participe ativamente do próprio cuidado.
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Dr. Marcelo Kirschbaum
Cardiologista com formação pelo InCor-FMUSP, UNIFESP, Dante Pazzanese e UFBA. Atua com foco em doenças valvares, cardiologia geral e casos complexos no InCor e no Hospital Albert Einstein. Acredito em decisões médicas construídas com escuta, clareza e respeito — para que o paciente participe ativamente do próprio cuidado.

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  • Graduação em Medicina pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)

  • Residência em Clínica Médica pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

  • Residência em Cardiologia pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia

  • Especialização em Doenças das Válvulas Cardíacas pelo Instituto do Coração (InCor) da FMUSP

  • Título de Especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e AMB

  • Médico da Unidade Clínica de Valvopatias do InCor-FMUSP

    • Atuação em ensino, pesquisa e cuidado direto de pacientes com doenças valvares

  • Corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein

    • Atendimento em pronto-socorro, internações e consultório ambulatorial

    • Atuação em duas unidades: Morumbi e Jardim Everest

  • Experiência com casos clínicos complexos, críticos e não críticos

    • Foco em segurança, precisão diagnóstica e acompanhamento longitudinal

    • Atenção especial à escuta ativa e construção conjunta das decisões de tratamento