Descobrir “placas nas carótidas” em um exame de rotina costuma vir acompanhado de uma pergunta imediata: o risco de AVC é iminente? Na grande maioria dos casos, não — mas o achado nunca deve ser ignorado.
As carótidas são as artérias do pescoço que levam sangue ao cérebro. A placa que se forma nelas é a mesma aterosclerose que acomete as coronárias e a aorta — e, mais do que uma ameaça local, funciona como termômetro do risco cardiovascular do corpo inteiro.
O que são as carótidas — e por que “entopem”?
Cada lado do pescoço tem uma artéria carótida que se bifurca para irrigar o cérebro e a face. É justamente nessa bifurcação — um ponto de turbulência do fluxo — que as placas de gordura e cálcio preferem se formar. O processo é o mesmo descrito nos laudos como aterosclerose da aorta: acúmulo lento de colesterol na parede da artéria, acelerado por hipertensão, diabetes, tabagismo e colesterol alto. Por isso, a placa na carótida raramente é um problema isolado — ela sinaliza que o mesmo processo pode estar acontecendo em outras artérias, inclusive as do coração.
Carótida entupida dá sintomas?
Essa é a parte contraintuitiva: na maior parte da sua evolução, não. A placa carotídea cresce em silêncio — não causa dor no pescoço, tontura inespecífica nem dor de cabeça, ao contrário do que muitos imaginam. Quando a doença fala, fala alto, na forma de sintomas neurológicos súbitos:
- Perda de força ou formigamento em um lado do corpo (rosto, braço ou perna);
- Dificuldade súbita para falar ou compreender o que é dito;
- Perda visual transitória em um olho, como uma cortina que desce (amaurose fugaz);
- Desequilíbrio ou confusão de início abrupto.
Qualquer um desses sintomas — mesmo que dure minutos e desapareça por completo — é emergência: pode ser um ataque isquêmico transitório, o aviso que antecede o AVC. A resposta certa é acionar o SAMU (192) imediatamente, não agendar consulta.
Como o problema é descoberto e medido?
- Doppler de carótidas (ultrassom): o exame de escolha — mostra a placa, mede a velocidade do fluxo e estima o percentual de estreitamento (estenose);
- Exame físico: em alguns pacientes, o médico ausculta um sopro no pescoço, que motiva a investigação;
- Angiotomografia ou angiorressonância: confirmam e detalham estenoses mais significativas antes de qualquer decisão de intervenção;
- Graduação: por convenção, estenoses abaixo de 50% são leves; entre 50% e 69%, moderadas; a partir de 70%, graves — números que orientam, mas não decidem sozinhos.
Qual é o tratamento?
A base do tratamento, para praticamente todos os pacientes, é clínica: estatina, controle rigoroso da pressão arterial, tratamento do diabetes, cessação do tabagismo e, em casos selecionados, antiagregante plaquetário. Para placas leves e moderadas sem sintomas, esse conjunto — hoje muito mais potente do que há vinte anos — é o tratamento, não um paliativo. A cirurgia (endarterectomia) ou o stent entram em cena principalmente nas estenoses graves, sobretudo quando já causaram sintomas — decisão que se toma em equipe, com cirurgia vascular e neurologia, pesando anatomia, risco do procedimento e perfil do paciente, conforme as diretrizes da Sociedade Europeia de Cardiologia. Um percentual de estenose que indica procedimento em um paciente pode indicar apenas acompanhamento em outro.
Recebi um doppler com placa na carótida: e agora?
Três perguntas organizam a consulta: qual é o grau de estenose medido? Houve algum sintoma neurológico, mesmo passageiro? Como estão os fatores de risco — colesterol, pressão, glicose, cigarro? Levar os exames anteriores permite ver se a placa está estável ou progredindo, o que muda a leitura. E vale reposicionar o achado: uma placa leve não é sentença de AVC — é um convite, com data marcada, para tratar o risco cardiovascular como um todo, o que costuma começar por um check-up cardiológico completo.
Conclusão
A carótida que preocupa é a que ninguém acompanha. O que protege o cérebro não é remover cada placa — é tratar o paciente inteiro.
Perguntas frequentes
Na maior parte da evolução, não — a placa cresce em silêncio. Quando surgem sintomas, são neurológicos e súbitos: perda de força em um lado do corpo, dificuldade de fala ou perda visual transitória. Nesses casos, é emergência (SAMU 192).
Por convenção, estenoses a partir de 70% são consideradas graves; entre 50% e 69%, moderadas; abaixo de 50%, leves. O percentual orienta a conduta, mas a decisão considera também sintomas, progressão e o perfil de cada paciente.
Não. Placas leves e moderadas sem sintomas são tratadas clinicamente — estatina, controle da pressão, do diabetes e cessação do tabagismo. Cirurgia ou stent ficam reservados principalmente às estenoses graves, sobretudo as que já causaram sintomas.
O acompanhamento é compartilhado: o cardiologista conduz o controle do risco cardiovascular global, e cirurgia vascular e neurologia entram na avaliação das estenoses graves ou sintomáticas, quando se discute procedimento.
Agende sua consulta para uma avaliação cardiológica completa e individualizada.